A Psicanálise é Transmissível?

Freud teria dito a Jung, quando o navio que os trazia à América se aproximava de Nova York: “Eles não sabem que trazemos a peste”.

A feliz equivocidade do termo “transmissível” remete-nos ao contágio e com ele, através de novo equívoco, chegamos a essa afirmativa de Freud. Ele não estava errado. A psicanálise contagia. Não há quem, uma vez em contato com ela, passe incólume. Ela é uma verdadeira peste, pois arrasa as ilusões egóicas, desalojando a consciência de sua pretensa soberania.

A peste psicanalítica aniquilou o sujeito cartesiano, tendo atingido mortalmente o saber transparente a si mesmo e totalmente transmissível.

Habitado por um saber que a própria consciência desconhece, o ser humano se descobre dividido e comandado por uma outra cena, vazia de ser.

Como é possível transmitir um saber sem sujeito? Como formar analistas se o ato analítico é o ato da falha do saber, com o sujeito advindo aí na condição de efeito, e não na de agente?

E, no entanto, a psicanálise se transmite. Sua transmissão não se dá por contágio, como a ideia da peste parece sugerir. Analistas se formam, sem que, todavia, a técnica possa ser ensinada.

Freud, cioso dessa formação e da transmissão de seu legado à posteridade, criou a primeira associação de psicanálise. O tempo mostrou que as instituições de psicanálise não estão imunes às forças que movem a psicologia das massas, como o próprio Freud já havia observado.

São justamente os impasses na formação de novos analistas e na própria prática clínica da psicanálise, que levam Lacan a propor um “retorno à obra de Freud”. Pode-se afirmar que foram as questões sobre a transmissibilidade da psicanálise que impulsionaram seu avanço tanto teórico, quanto prático.

Como se dá a transmissão da psicanálise? Seria ao final da análise? De que natureza é o fim da análise? Qual o papel das escolas de psicanálise na formação de novos analistas?

Esses e outros temas servirão de fio condutor aos estudos da ACP ao longo do ano de 2017. Todas as atividades de ensino deverão, na medida do possível, pensar a transmissão, na tentativa de ampliar e fazer avançar o tema.
O assunto também será abordado através de diversas palestras, com convidados e membros da ACP, que ocorrerão durante o ano, culminando na VII Jornada de Psicanálise da ACP, em maio de 2018.

Já na abertura dos trabalhos do ano, contaremos com a palestra de Crisitane Valli, da PUCCAMP, sobre “A História da Formação do Analista de Breuer a Lacan”.

Fique atento à nossa programação no site e no facebook, e venha participar conosco desses debates.

 

Regina Steffen – Comissão de Ensino